14 junho, 2006

Pertença

"
Paul: "Holly, I'm in love with you."
Holly: "So what?"
Paul: "So what? So plenty! I love you, you belong to me!"
Holly: "No. People don't belong to people."
Paul: "Of course they do."
Holly: "I'll never let anyone put me in a cage!"
Paul: "I don't want to put you in a cage, I wanna love you."
Holly: "Same thing!"
Paul: "No it's not, Holly."
Holly: "I'm not Holly! I'm not Lula Mae either. I don't know who I am. I'm like Cat here. We're a couple of no-name slobs. We belong to nobody, and nobody belongs to us. We don't even belong to each other." (De Breakfast at Tiffany's)"

O uso de pronomes possessivos quando se fala de pessoas não-familiares parece ser demasiado transitório para ser utilizado sem a devida atenção! Mas é claro que não se pode ser tão minucioso no uso da linguagem para que se possa exprimir-se sem constantes exercícios mentais...
As pessoas podem ter amigos, namorados, sócios, colegas, chefes, etc., que sofrem evoluções hierárquicas, ou que simplesmente se extinguem em termos relacionais. Um colega pode passar a ser chefe; um namorado pode evoluir para marido ou para amigo, ou muito simplesmente deixar de ser! E ainda a forma como nós pensamos que a outra pessoa se relaciona connosco pode não ser a mesma forma como ela pensa que se relaciona. Então, quando eu digo "o meu amigo disse-me...", na realidade, "alguém me disse"... de facto, ele relaciona-se comigo pela circunstância de me ter dito algo, mas fica mais "fácil" dizer "o meu amigo disse-me" do que "alguém com quem me encontro ocasionalmente disse-me" ou "alguém que outrora considerava meu amigo e agora não considero mais disse-me"! Então, simplificamos (é mais fácil!). Da mesma forma quando se diz "vou ter com o meu namorado!" é mais "fácil!" mas na verdade, e porque isso existe!, pode não ser namorado dela, ou só dela, ou não ser de todo!

"Conta-me histórias
A que eu gostaria de voltar
Tenho saudades de momentos
Que nunca mais vou encontrar
A vida talvez sejam só 3 dias
Eu quero andar sempre devagar
Até a ti chegar

Ninguém é de ninguém
Mesmo quando se ama alguém
Ninguém é de ninguém
Quando a vida nos contém
Ninguém é de ninguém
Quando dorme a meu lado
Ninguém é de ninguém
Quando fico acordado vendo-te dormir

Um raio de sol através de um vidro
Faz-me por vezes hesitar
Na vontade de estar contigo
Pelo dia paira no ar.
Paira no ar

Ninguém é de ninguém
Mesmo quando se ama alguém
Ninguém é de ninguém
Quando a vida nos contém
Ninguém é de ninguém
Quando dorme a meu lado
Ninguém é de ninguém
Quando fico acordado vendo-te dormir

(João Pedro Pais)"

A pertença passa por um sentimento de posse e domínio que é reconhecido por outras pessoas. É disso que se trata - domínio! ou o sentimento de domínio... - "As pessoas não pertencem a pessoas"!
Já divaguei um pouco em futilidades opinativas e, assim, vos deixo em reflexão...

Sejam Felizes!

10 comentários:

Orquídea disse...

Acredito piamente que as relações entre pessoas sejam algo mais que simplesmente um sentimento de pertença.
Um pai diz "o meu filho", porque realmente o filho é dele e não de outro pai qualquer. No entanto, o sentimento que os une não é apenas o de pertencerem um ao outro, é algo maior e incondicional - Amor.
O facto de usar um pronome possessivo em relação a alguém pode não significar que se esteja a dizer que esse alguém nos pertence. Pode transmitir o orgulho e o gosto que temos em manter uma relação com esse alguém. Quando dizemos "este é o meu amigo (...)", dizemos porque é aquele amigo, porque é especial; em relação a outra pessoa podíamos simplesmente dizer "é um amigo", o que transmite ser um de entre outros amigos e não aquele amigo. O mesmo se passará em relação a um casal de namorados; o "meu namorado" ou "a minha namorada" para além de dizer que são namorados um do outro, transmite o orgulho que têm um no outro. Transmite o gosto e o valor que se dá ao facto de se namorar com esta pessoa que se gosta e não com outra qualquer. De outra forma estaríamos a relativizar os relacionamentos.

«Nenhum Homem é uma ilha, ninguém é inteiramente de si próprio, cada Homem é um pedaço de continente, uma parte de terra firme.»

No entanto, se o que pertendes transmitir com este post é que não devemos tomar ninguém como certo na nossa vida ou como sendo propriedade nossa; então estou inteiramente de acordo contigo.

«Amo a liberdade, por isso, todas as coisas que amo deixo-as livres. Se voltarem foi porque as conquistei, se não voltarem foi porque nunca as possuí.»

Ninguém deve partir do princípio que é "dono" de alguém, nem deve tratar alguém como "propriedade" sua; ninguém deve consentir em ser tratado assim, pois, não é assim que se demonstram sentimentos ou afectos.

O Último Padrinho disse...

Concordo que o sentimento une relacionalmente as pessoas... Mas com um pouco de atenção ver-se-ia que o post não se refere a isso! Em primeiro lugar o texto refere-se a "pessoas não-familiares"... Em segundo lugar discordo peremptoriamente que só tratemos alguém ou refiramos como "meu amigo" alguém por quem nutrimos sentimentos de natureza afectiva... Em terceiro onde se encaixam os "meus" colegas por quem não tenho de nutrir nenhum sentimento afectivo; etc.
É muito interessante a sua abordagem e concordo que o sentimento afectivo faz com que as pessoas nos pareçam especiais e seja motivo para, muitas vezes, os colocarmos nas categorias de meu amigo ou meu namorado... No entanto, como referi no post, penso que essa classificação de pertença é transitória.
Acho sensato não tomar alguém como propriedade nossa como referiu! As pessoas entram e saiem da nossa vida!

Um abraço

Orquídea disse...

Meu caro,
Fiz questão de mencionar "relações familiares" por achar que são o melhor dos exemplos para ilustrar o que considero ser o ponto mais importante da questão: Sentimentos.
Tudo na vida tem a ver com sentimentos, sejam eles positivos ou negativos. Os sentimentos podem ser efémeros, transitórios, evolutivos (entre outras possibilidades). Portanto, se uma classificação de "pertença" advem de um sentimento que nutrimos por alguém, significa que também essa classificação será efémera, transitória e evolutiva. Assim sendo, penso que estaremos de acordo neste ponto.
Quanto à questão dos "meus colegas", a palavra "colega", só por si, transmite a relação que temos com essa pessoa (colega), independentemente de existir ou não um relacionamento afectivo.

Colega: (...) 1 pessoa que pertence à mesma colectividade ou categoria; 2 pessoa que exerce a mesma profissão ou tem as mesmas funções (...).
(in, Dicionário da Língua Portuguesa (2004); Porto Editora).

Abraço

O Último Padrinho disse...

Minha cara Orquídea, parece que estamos a falar de coisas diferentes... Tive o cuidado de concretizar o tipo de pessoas a que me referia, mas a amiga insiste em indicar os familiares (os quais excluí propositadamente da minha abordagem, logo de início, por achar que não se encaixam nela). Em relação a "Tudo na vida tem a ver com sentimentos, sejam eles positivos ou negativos" trata-se da sua opinião a qual respeito. Afinal, é ela que, a meu ver, permite exprimir de forma tão verdadeiramente única as suas intervenções! Pelo menos penso ter conseguido fazê-la reflectir no assunto. Agradeço por isso o contributo...

Susana disse...

Penso que os pronomes possessivos são simplesmente palavras que se empregam em vez de um nome...não acho que tenham subjacente qualquer conotação afectiva...dizer "o meu namorado" é simplesmente distinguir essa pessoa de todas as outras com quem me relaciono, nomeadamente,amigos, colegas de trabalho..não creio que seja sinónimo de possessividade, ou, pelo menos, não deve ser...não se trata de domínio...mas de partilha...porque realmente ninguém é de ninguém...também não tem que demonstrar qualquer espécie de orgulho...se eu digo "o meu professor" ou "o meu patrão" é porque não há outra forma de me referir a eles ou de os individualizar...e não porque tenha orgulho!!Os pronomes possessivos demonstram apenas que, de uma forma ou de outra, essa pessoa se relaciona, ou se relacionou, connosco mas não creio que daí se possa aferir qualquer sentimento..Penso que é tudo uma simples questão gramatical...não é o pronome que demonstra uma maior ou menor afectividade...é a palavra que se segue..amigo, namorado..ou simplesmente colega...

Sandrine disse...

Quando uso a expressao "meu namorado", "meu amigo", "meu marido", nao pretendo afirmar que me pertença, nem em propriedade, nem em posse; simplesmente o quero distinguir dos demais; na verdade, se nao fosse "meu namorado", nunca seria "namorado" tout court. Poderia eventualmente ser amigo, colega, ou desconhecido. Há palavras que necessariamente têm de ser acompanhadas de pronome, sob pena de cairmos numa "mistura", quer de conceitos, quer de situações. Se afirmo "o namorado...", a pergunta imediata do destinatário da conversa será "de quem?". Pois, namorado, só pode ser de uma pessoa, pelo menos no meu modo de ver a realidade, e na nossa sociedade onde vigora a monogamia .... pelo menos oficial e teoricamente...

O Último Padrinho disse...

Por alguma razão esses pronomes se chamam possessivos! Se formos a um dicionário veremos por exemplo "meu":

pron. poss.
que pertence à pessoa que fala;
pertencente à minha pessoa.

(Do lat. meu-, «id.»)

(Dic. da Língua Portuguesa - Priberam Informática e Porto Editora)

Trata-se de pertença, sim! - podemos sempre referir-nos às pessoas por um nome próprio, por exemplo: "O Paulo disse..." ou "O Ferreira disse..." em vez de "O meu amigo disse..."
Usamos o pronome possessivo e o substantivo quando queremos revelar algum tipo de posse ou relação com essa pessoa de quem se fala... Por exemplo: as senhoras das aldeias, e não só, referem-se muitas vezes a "o meu Pedro", "o meu Joaquim" para se referir a pessoas com esse nome mas que lhes são relacionadas, como o filho ou o marido. Isso facilita a comunicação mas demonstra, ainda que involuntariamente, um sentimento de pertença. Eu próprio me refiro aos "meus amigos" etc. Mas lá que há um sentimento de pertença há! E então?! :)

Orquídea disse...

Hum... Mudou de opinião, alterou a meneira como encara a situação do "meu", "teu", "seu", "nosso", "vosso", "deles"?
Do que pude entender na leitura do post e o que reti foi que é contra, ou pelo menos não concorda, com os possíveis sentimentos de pertença traduzidos (ou não) pelo uso de pronomes possessivos. Contudo, finalmente, demonstra que, quer seja intencional ou não, o dito sentimento de pertença não o incomoda assim tanto...

Meu amigo, em que ficamos?!

Abraço

Orquídea disse...

"Hoje, estou convencida de que ninguém perde ninguém, porque ninguém possui ninguém. Essa é a verdadeira experiência da liberdade: ter a coisa mais importante do mundo, sem a possuir..."

Orquídea disse...

"Hoje, estou convencida de que ninguém perde ninguém, porque ninguém possui ninguém. Essa e a verdadeira experiência da liberdade: ter a coisa mais importante do mundo, sem a possuir..."